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PrEP
Necessidades não atendidas entre mulheres trans
ALTOS NÍVEIS DE NECESSIDADES DE PrEP NÃO ATENDIDAS ENTRE MULHERES TRANSGÊNERO NO RIO DE JANEIRO
Krishen Samuel, aidsmap.com • Publicado em 26 de novembro de 2018

DOIS ESTUDOS

Um estudo publicado recentemente no Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes indica que mulheres transgênero (trans) no Brasil tinham baixos níveis de conhecimento da profilaxia pré-exposição (PrEP). Ao mesmo tempo houve proporções significativas do grupo com disposição de ser elegível para a PrEP e usa-la como uma ferramenta de prevenção.

Outro estudo qualitativo recente publicado em Culture, Health & Sexuality fornece um quadro contextual para esses achados, uma vez que explora, para mulheres trans no Brasil, as necessidades programáticas de HIV. Vários fatores sociais e contextuais, como a discriminação às pessoas trans e o estigma do HIV experimentados e antecipados, estiveram ligados a evitar os serviços de prevenção e tratamento para mulheres trans soropositivas e soronegativas. Além das intervenções biomédicas, as intervenções socioestruturais também emergiram como cruciais para as mulheres trans no Brasil.

ANTECEDENTES

Necessidades não atendidas entre mulheres trans no Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, visto de cima, palco do estudo, que acende uma luz de alerta sobre a prevenção. | Foto: Luis G. da Fonseca

Globalmente, as mulheres trans apresentam um risco desproporcionalmente maior de contrair o HIV – isso é estimado em 49 vezes mais do que em outros grupos. No contexto sul-americano, particularmente no Brasil, as mulheres trans apresentam taxas substancialmente mais altas de prevalência de HIV, mesmo quando comparadas a outras populações-chave, como homens que fazem sexo com homens. Estima-se que quase um terço de todas as mulheres trans no Brasil possam estar infectadas pelo HIV, muitas vezes tendo acesso tardio aos serviços de saúde e tratamento. Esta população-chave foi descrita como o grupo de maior prevalência no país.

No Brasil há uma falta de prevenção específica para o HIV dirigida a mulheres trans. As necessidades singulares desta comunidade suscitam desafios específicos: a transfobia e o estigma relacionado com a assistência à saúde, a marginalização social e econômica, bem como questões relacionadas com cuidados de saúde relacionados com o gênero (tais como preocupações sobre interações entre medicamentos para o HIV e terapia hormonal).

O primeiro estudo utilizou amostragem orientada por entrevistados (RDS) para recrutar mulheres trans para entrevistas face-a-face que avaliaram a consciência e a disposição para o uso de PrEP. Também estimou quantas mulheres trans seriam consideradas elegíveis para a PrEP, com base em fatores como não estar em um relacionamento monogâmico, ter tido sexo anal sem preservativo ou uma infecção sexualmente transmissível (IST) nos últimos 12 meses ou um parceiro sexual HIV-positivo nos últimos três meses. A pesquisa foi realizada de agosto de 2015 a janeiro de 2016 e os dados foram coletados de 345 participantes. Todas as participantes identificaram-se como mulheres trans e residiam no Rio de Janeiro. A maioria das participantes tinha entre 25 e 35 anos e oito anos ou menos de educação formal.

As participantes foram primeiramente perguntadas sobre conhecimento da PrEP. Após uma breve explicação, elas foram questionadas sobre a disposição de tomar a PrEP. Perguntas adicionais incluíram preocupações sobre a PrEP, bem como rotas preferidas de administração, comportamento sexual, uso de drogas e hormônios, experiências de estigma relacionado à saúde e assim por diante. Os testes de HIV e IST foram realizados com todas as participantes após a realização da pesquisa.

Das 345 participantes testadas para HIV, 59% resultaram HIV negativas, 29% tinham diagnóstico prévio positivo para HIV e 12% foram diagnosticadas com HIV

Das 345 participantes testadas para HIV, 59% resultaram HIV negativas, 29% tinham diagnóstico prévio positivo para HIV e 12% foram diagnosticadas com HIV. Trinta e oito por cento das entrevistadas haviam ouvido falar sobre a PrEP, enquanto 49% haviam ouvido falar sobre a profilaxia pós-exposição (PEP). No entanto, apenas 6% daquelas que não sabiam ter infecção pelo HIV haviam acessado a PEP. A maior conscientização da PrEP foi associada ao acesso aos serviços de saúde nos últimos seis meses (P = 0,004), ter pelo menos um parceiro soropositivo conhecido (P = 0,04) e mais de oito anos de escolaridade (P = 0,079). Menor consciência de PrEP foi associada com sexo anal sem preservativo (P = 0,04) e uma infecção de HIV recém-diagnosticada (P = 0,035).

A disposição para o uso da PrEP foi avaliada naquelas que se autodeclararam HIV-negativas. A maioria das participantes (76%) expressou disposição para usar a PrEP após uma breve explicação, apesar das preocupações com os efeitos colaterais e interações com os hormônios. Fatores associados positivamente com a disposição para a PrEP foram ser mais jovem (entre 18 e 35 anos) e alto risco percebido de HIV (a classificação das participantes da probabilidade de contrair HIV no próximo ano). Os fatores associados ao fato de estarem menos dispostas a usar a PrEP incluíram preocupações com os efeitos da PrEP a longo prazo e possíveis desafios ao acesso, como resultado do estigma encontrado nos serviços de saúde. Uma alta porcentagem de mulheres trans HIV-negativas preencheu os requisitos para os critérios de elegibilidade à PrEP (67%), aumentando para 78% daquelas que descobriram a infecção durante o estudo. Isso indica uma necessidade significativa de PrEP como uma ferramenta de prevenção nesta comunidade.

Uma alta porcentagem de mulheres trans HIV-negativas preencheu os requisitos para os critérios de elegibilidade à PrEP

RESULTADOS QUALITATIVOS

Dados qualitativos de grupos focais realizados com mulheres trans no Brasil fornecem uma contextualização para os dados quantitativos apresentados acima. Seis grupos focais foram realizados com 36 mulheres trans em 2015 no Rio de Janeiro. Três grupos foram realizados com 21 mulheres trans HIV-negativas e três com 15 mulheres trans HIV-positivas. Profissionais de saúde, incluindo uma mulher trans, conduziram os grupos focais. Os tópicos incluíram a prevenção do HIV e consideraram fatores sociocomportamentais (como o acesso ao apoio social e apoio à adesão) e estratégias biomédicas (como PrEP e autoteste). Quarenta e dois por cento das participantes tinham entre 18 e 30 anos, com apenas 6% com formação universitária.

A transfobia em ambientes de saúde pública surgiu como um tema forte dos grupos focais. Havia uma ligação entre a discriminação trans e o estigma relacionado ao HIV com a suposição de que quaisquer problemas de saúde com mulheres trans eram relacionados ao HIV. Em certos casos, isso interferia no acesso aos cuidados para evitar o estigma. A transfobia se manifestou de maneiras como não ter um nome social respeitado, com os profissionais de saúde usando nomes de nascimento masculinos. As participantes também expressaram uma desconexão entre as políticas sociais e civis de afirmação de transgêneros e a realidade da prática cotidiana em ambientes de saúde no Brasil.

“Se chegarmos a um hospital público agora… Se eu chegar com uma dor aqui… [a resposta é] fazer um teste de HIV” (Ana, HIV-negativa).

“Às vezes, elas estão morrendo em casa e não querem ir ao atendimento urgente porque [elas pensam] ‘vão me associar ao HIV’” (Gabriela, HIV-positiva).

a violência contra as mulheres trans (particularmente de parceiros sexuais) surgiu como um fator que limitava a prevenção do HIV

Além disso, a violência contra as mulheres trans (particularmente de parceiros sexuais) surgiu como um fator que limitava a prevenção do HIV. As mulheres trans estão em uma situação particularmente vulnerável, pois muitas delas ganham a vida com trabalho sexual e estão em posições econômicas precárias.

“Quando eu disse que só faria sexo com camisinha, ele teve uma atitude extremamente agressiva... ele tentou me machucar fisicamente” (Juliana, HIV-negativa).

Embora estratégias biomédicas como PrEP e o Tratamento como Prevenção (TcP) fossem consideradas opções atrativas para além do preservativo, havia preocupações relacionadas a que os indivíduos que usam a PrEP se sentissem invulneráveis, dúvidas sobre a eficácia da PrEP e dúvidas sobre ter informações corretas e precisas. Havia também a preocupação com o fato de a PrEP ser outra fonte de estigma, já que os membros da comunidade podem não entende-la completamente.

“Vamos falar sobre a PrEP… por mais que eu tenha dito que era um tratamento para pré-exposição, as pessoas me chamavam, enviavam mensagens no Facebook, outras perguntavam abertamente se eu estava doente” (Juliana, HIV-negativa).

Um tema importante que surgiu foi que as participantes confiavam mais na informação quando ela vinha de outras mulheres trans. Isso enfatiza a necessidade de informações baseadas em pares e redes de suporte. Os serviços de prevenção e tratamento que empregavam mulheres trans eram vistos como mais desejáveis e acolhedores.

“Há uma pessoa trans que sabe falar como eu, como todos nós, fala a mesma língua e nos faz sentir consideradas, nos sentimos bem-vindas graças a ela.” (Ana, HIV-negativa).

CONCLUSÃO

Considerando os resultados desses dois estudos, é evidente que as mulheres trans apresentam alto risco de contrair o HIV e que a combinação de baixo conhecimento, alta disposição e substancial elegibilidade para a PrEP significa que há uma necessidade definitiva de melhorar a educação e o acesso da PrEP nas comunidades trans.

O Brasil está atualmente no processo de implementação nacional da PrEP por meio de seu sistema de saúde pública, mas faltam intervenções específicas para a população trans. Além disso, as intervenções biomédicas não podem ser removidas de seu contexto social e, portanto, estratégias sociais para combater o estigma, a violência e a discriminação – tanto em ambientes de saúde como em comunidades mais amplas – ao implementar serviços de afirmação de gênero e empoderamento são cruciais para mulheres trans no Brasil.

Referências:
• Jalil EM, et al. Awareness, Willingness, and PrEP Eligibility Among Transgender Women in Rio de Janeiro, Brazil. JAIDS Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes 79: 445-452, 2018.
• Sevelius J et al. Optimising HIV programming for transgender women in Brazil. Culture, Health & Sexuality, online ahead of print, 2018.

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