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COLESTEROL E HIPERTENSÃO

16/03/2004 - Revista Veja

Dois dos remédios mais vendidos do mundo agora juntos,

Hipertensão e colesterol alto – essa é uma combinação perversa, que faz de suas vítimas sérias candidatas a distúrbios cardiovasculares. Graças a remédios desenvolvidos na década passada, hoje é possível controlar os dois males. O maior desafio dos médicos é manter os pacientes fiéis aos medicamentos. Muita gente os abandona ou porque eles são caros demais, ou porque se esquece e se cansa da obrigação de tomar mais de um comprimido por dia. Mais da metade das vítimas de doenças crônicas em geral largam o tratamento no meio. Entre os hipertensos que interrompem a medicação, 85% o fazem no primeiro ano de terapia. Uma interrupção dessas não só prejudica o controle como também pode agravar a doença. Para diminuir o preço e aumentar a taxa de adesão às prescrições, a indústria farmacêutica vem procurando aglutinar remédios numa só cápsula. O Ministério da Saúde aprovou recentemente o Caduet, da Pfizer, um remédio que junta um medicamento contra o colesterol alto e outro contra a hipertensão. O primeiro é o Lípitor (nome comercial da atorvastatina), o remédio mais vendido no mundo e que, só no ano passado, movimentou 9,3 bilhões de dólares. O segundo é o Norvasc (amlodipina, já disponível na forma de genérico), que ocupa o quarto lugar na lista das estrelas das farmácias. O tratamento com Lípitor pode custar até 90 reais por mês. Com o Norvasc, essa conta vai a 60 reais. O Caduet, diz o fabricante, levará a que os pacientes economizem 30%. Só não vale gastar essa diferença com churrasco.

O Caduet é o primeiro medicamento criado para tratar duas doenças distintas ao mesmo tempo. Estudos clínicos com 3.700 pacientes que utilizaram o Caduet mostraram que, em 70% dos casos, eles atingiram os níveis desejáveis de pressão arterial e colesterol. O novo remédio conserva os mesmos graus de eficácia dos outros dois medicamentos utilizados isoladamente. Na semana passada, divulgou-se o resultado de um estudo sobre o papel das estatinas na prevenção dos males cardíacos. O trabalho foi patrocinado pelo laboratório Bristol-Myers Squibb, fabricante do Pravacol. A intenção era mostrar que o seu produto era tão ou mais eficaz do que o do seu concorrente direto, o Lípitor. A iniciativa revelou-se um tiro no próprio pé. Durante dois anos, médicos acompanharam 4.162 pacientes – todos hospitalizados após uma súbita dor no peito. Eles foram divididos em dois grupos. Um foi medicado com o máximo da dosagem de Lípitor e o outro com o máximo de Pravacol. Com o Lípitor, o LDL (colesterol ruim) dos pacientes baixou para 62 miligramas por decilitro de sangue, em média, enquanto com o Pravacol essa taxa foi a 95. O grupo que tomou Lípitor teve, ainda, uma incidência 16% menor de morte, infarto e dor no peito e submeteu-se a menos angioplastias e cirurgias para a colocação de pontes de safena. O estudo será publicado na edição de abril do The New England Journal of Medicine, uma das mais respeitadas publicações científicas americanas.

A partir desses resultados, alguns médicos passaram a defender como desejável um nível de LDL abaixo de 100 miligramas, entre 60 e 70 miligramas. Atualmente, o desejável é que se situe entre 100 e 129 miligramas. "É a prova de que, quanto maior a redução do LDL, maior o poder de as estatinas reduzirem o risco de doenças cardíacas", diz o cardiologista Otávio Rizzi Coelho, presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. Outros médicos, no entanto, acham esses parâmetros discutíveis, já que, para atingi-los, muitos pacientes teriam de aumentar demasiadamente as doses diárias de estatinas. O problema, segundo esses especialistas, são os efeitos colaterais que tais substâncias podem causar, em especial no fígado e nos rins. Além disso, há que levar em conta que o colesterol (seja ele o bom ou o ruim) é um dos compostos mais importantes para o bom funcionamento do organismo. Trata-se de uma lipoproteína que serve de matéria-prima na produção de hormônios e de vitamina D. Quantidades muito baixas podem comprometer o organismo.

O Caduet está previsto para chegar ao mercado brasileiro em agosto e ao americano, em maio. Do ponto de vista da indústria farmacêutica, os "remédios dois em um" têm uma vantagem adicional. Por meio deles, os fabricantes conseguem driblar a expiração da patente de produtos que são verdadeiras minas de ouro – remédios cujas vendas ultrapassam 1 bilhão de dólares por ano. A patente do Lípitor no Brasil, por exemplo, vence em 2008. Depois dessa data, qualquer laboratório poderá usar o seu princípio ativo, a atorvastatina, para lançar um medicamento. Mas, com o Caduet, só a Pfizer poderá usar essa substância em combinação com o princípio do Norvasc. É um fôlego extra.