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HIV E ESTIGMA

17/08/2016 - AidsMap

O estigma persiste na era da carga viral indetectável

O estigma persiste na era da carga viral indetectável

De acordo com os resultados da Pesquisa de Estigma de Pessoas que Vivem com o HIV do Reino Unido de 2015, relatados na 21ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2016), em Durban, África do Sul, numa era de tratamento generalizado do HIV e carga viral indetectável, o estigma continua a ser uma característica persistente na vida de quase metade das pessoas que vivem com HIV diagnosticadas no Reino Unido. No entanto, a maioria das pessoas que vivem com HIV têm pontuação alta em medidas de resiliência psicológica, habilitando-os a lidar melhor com o estigma.

Resiliência: capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

A Pesquisa

Um total de 1576 pessoas recrutadas a partir de 120 organizações comunitárias e 47 clínicas de HIV em todo o Reino Unido completaram uma pesquisa on-line anônima. Os participantes representaram amplamente a demografia de pessoas com acesso ao tratamento do HIV no Reino Unido. Além disso, 40 entrevistas semi-estruturadas foram realizadas com uma subamostra.
Os pesquisadores mediram a adaptação dos participantes, usando dez perguntas e uma escala validada.

Resultados

Em resposta à afirmação "Tenho tendência a me recuperar depois de enfrentar dificuldades", 63% disseram que isto acontecia frequentemente ou era verdade quase sempre. Em relação ao "Eu sou capaz de lidar com sentimentos desagradáveis ou dolorosos", 52% disseram que isto acontecia frequentemente ou quase sempre.

Ao todo, 27% dos participantes da pesquisa tinham baixa resiliência, 39% tinham resistência média e 34% tiveram alta resiliência.

Aqueles com baixa resiliência eram mais propensos a experimentar o estigma e a relatar experiências negativas de viver com o HIV. Especificamente, eles tinham mais propensão do que as pessoas com alta resiliência para: ter sido diagnosticadas com depressão (71% vs 22%), ter experimentado discriminação social (46% vs 23%), ter experimentado ansiedade (53% vs 24%) ou ter evitado experiências sociais ou sexuais (54% vs 32%).

A análise temática de experiências de vida com HIV dos participantes, identificou que aqueles com baixa resiliência, informaram mais comumente isolamento social e experiências negativas. Por outro lado, aqueles com alta resiliência focaram na adoção de comportamentos mais saudáveis e experiências de empoderamento.

Relatos

A resiliência foi um tema importante durante as entrevistas em profundidade:
"Eu não sinto que exija aceitação ou aprovação dos outros. Eu não sinto que esse status muda fundamentalmente a pessoa que eu sou, mas a minha vontade de acreditar em mim mesmo como não diminuída requereu que eu me aprofundasse internamente e fosse corajoso ".
"Eu fui diagnosticado com uma contagem de CD4 de 10. Meu CD4 estava entre a vida e a morte, é uma linha fina ... A vida é maravilhosa, eu aproveita ao máximo o que eu tenho."

Durante quase todas as entrevistas em profundidade, foram relatadas Instâncias de estigma antecipado (a pessoa com HIV esperava que alguém tivesse uma opinião pobre ou uma má reação com ela). Por exemplo, uma mulher disse:
"Na minha igreja, eu realmente nunca aludi a ter HIV, porque eu não sei o que eles pensariam."
A antecipação do estigma foi na maioria das vezes experimentada quando se considerava falar sobre a sorologia para o HIV com um parceiro sexual potencial.
"É surpreendente que, apesar dos avanços no tratamento, as atitudes das pessoas ainda são exatamente as mesmas. Igual que há muito tempo atrás, quando ele começou ".

No entanto, o entendimento sobre o impacto do tratamento antirretroviral na infectividade, empoderou algumas pessoas.
"Eu acho que deu mais confiança às pessoas que vivem com o HIV. Muitas mais pessoas estão dizendo agora, eu não transmito a infecção, bem, então eu vou em frente e serei um pouco mais confiante em tentar encontrar alguém. "

Estigma em serviços de saúde

O serviço de saúde continua a ser um importante local de estigma. Os pesquisadores descobriram que 40% dos entrevistados tinham experimentado tratamento negativo em um ambiente de cuidados de saúde, incluindo o uso de excessiva barreira de proteção, comentários negativos e ser dada a última consulta do dia. Problemas do passado foram associados com preocupação pela interação futura com profissionais de saúde (estigma antecipado) e evitar cuidados, na maioria das vezes com um clínico geral (CG) ou dentista.

Estigma e etnia

Comparados com os participantes brancos britânicos ou irlandeses, pessoas de outras etnias experimentaram maiores problemas com a divulgação e a discriminação. Entre as pessoas de outras etnias, 21% não tinha revelado o seu estado sorológico para ninguém fora de contextos de saúde, em comparação com 12% das pessoas brancas britânicas ou irlandesas. Quando a revelação tivesse ocorrido, eles foram menos propensos a sentir que tinham recebido apoio adequado.

Entre as pessoas de outras etnias, 19% relataram experiências de fofoca, 16% de rejeição sexual, 10% assédio verbal e 5% a exclusão de encontros sociais ou familiares.

Mulheres e mulheres trans

As mulheres também relataram mais casos de estigma que os homens. Elas foram especialmente propensas a ter preocupações sobre o potencial de fofocas ou rejeição sexual (estigma antecipado). Talvez como resultado, 29% evitaram relações sexuais e 10% evitaram encontros familiares.
"Eu não me senti confortável em não ser aberto sobre isso ... eu achei muito difícil não ser capaz de ser completamente honesto com as pessoas."
As mulheres trans (19 participaram) relataram altos níveis de discriminação nos serviços de saúde.

Roger Pebody, aidsmap
Publicação: 28 de julho de 2016
Tradução Jorge Adrian Beloqui