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A BUSCA DA CURA

17/07/2016 - MedPage Today

Uma Cura para o HIV no sentido clássico continua sendo um desafio

Uma Cura para o HIV no sentido clássico continua sendo um desafio, afirma especialista diretor de NIAID . Remissões de longo prazo podem ser mais viáveis

DURBAN, África do Sul - A história sugere que encontrar uma cura "clássica" para o HIV – ou seja, eliminar o vírus do corpo - vai ser uma tarefa difícil, disse um alto funcionário dos EUA.

Por outro lado, um objetivo mais modesto - o de alcançar a remissão sustentada do vírus - parece mais próximo, no estado atual da ciência médica, segundo o Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAIDS) dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA ( NIH ).

O sistema imunitário humano pode lidar com outros vírus, mas o HIV quase nunca é eliminado para curar a infecção, "nós temos que fazer coisas que a natureza nunca fez antes", Fauci disse aos jornalistas reunidos na Conferência Internacional de Aids.

Uma cura clássica "certamente não é impossível, mas muito desafiante por causa da natureza muito especial do HIV", disse Fauci antes de dar uma palestra em um simpósio pré-conferência dedicado à ciência da cura de HIV.
Essa "natureza especial" é um enigma bem conhecido: o próprio vírus se insere no genoma de células do sistema imunológico, o próprio mecanismo que o corpo usa para se livrar de patógenos. Muitas dessas células morrem ao produzir novas partículas virais, o que conduz à deficiência imunitária se o processo não for interrompido por medicação, mas outras células tornam-se latentes, isto é inativas.

Esse reservatório de células infectadas pode reiniciar o crescimento ativo do HIV, se o tratamento for interrompido, geralmente dentro de dias ou semanas, e não há atualmente nenhuma maneira conhecida para se livrar delas.
Fauci observou que têm sido tentadas quatro abordagens principais para a cura clássica, alguns mais promissoras do que outras, mas até agora sem sucesso:

• esgotar o reservatório com vários medicamentos: tem uma história que remonta a 2 décadas. Porém os pacientes observam que sua infecção volta quando os medicamentos anti-HIV são suspensos.
• Atacar as células do reservatório com terapias imunotóxicas, uma abordagem emprestada da oncologia que está mostrando "alguma promessa" nos primeiros estudos de HIV.
• transplantar células-tronco do sistema imunitário que não possuem uma proteína necessária para o HIV infectá-las. O chamado paciente de Berlim, Timothy Brown, foi o primeiro caso - e até agora único - em que a abordagem foi bem sucedida.
• "Editar" células do sistema imunológico para torná-las imunes ao HIV, uma ideia inspirada no caso Brown; é muito cedo para dizer tanto se o processo pode funcionar como se ele pode ser amplamente aplicado.
Alcançar a remissão viral sustentada, o que permitiria que os medicamentos anti-HIV fossem suspensos por longos períodos de tempo sem medo do rebote viral, é "provavelmente mais viável", disse Fauci.

Para que uma tal abordagem funcione, " você precisa começar com um reservatório pequeno e um sistema imunitário competente", ele disse.
Em outras palavras, os doentes necessitam ser tratados tão rapidamente quanto possível após a infecção, o que é agora reconhecido nas diretrizes de tratamento, para reduzir o crescimento do reservatório e o dano para o sistema imunitário.

Em casos raros, observou, esse tratamento precoce pode ser suficiente para que o sistema imunitário de um paciente possa depois controlar o vírus por si só.

Fauci expressou que outra abordagem, consiste em desenvolver uma vacina terapéutica, isto é, aplicada em pessoas com HIV e que estimularia o sistema imunitário, e permitir-lhe lutar contra o vírus. Nenhuma teve sucesso até agora, mas estão em andamento ensaios clínicos de algumas candidatas, disse ele.

Mas a descoberta de mais de 200 anticorpos amplamente neutralizantes contra o HIV sugere que eles poderiam formar a base de uma quinta abordagem, acrescentou.

Durante o desenvolvimento da maior parte de outras infecções, tais anticorpos são produzidos dentro de dias ou semanas. Porém no caso do HIV isto leva anos, e no momento em que surgem eles já são de pouca utilidade para um paciente.

Fauci disse que vários laboratórios, inclusive o próprio, estão realizando estudos para ver se a transferência passiva de anticorpos amplamente neutralizantes pode induzir a remissão de longa duração.
A resposta? Ainda não.

Mas em um pequeno grupo de pacientes com o vírus totalmente controlado por medicação, infusões de um anticorpo apelidado VRC01 estendeu o tempo que os pacientes poderiam permanecer sem usar seus medicamentos anti-HIV em uma mediana de 39 dias. Os dados históricos sugerem que o rebote viral começa geralmente entre 11 e 28 dias após a suspensão.

O resultado "não foi uma maravilha", disse Fauci, mas sugere que houve algum efeito. E quando ele e seus colegas mergulharam mais profundamente nos dados, eles descobriram que nos pacientes que tinham resistência pré-existente a o anticorpo VRC01, a carga viral tendia a se recuperar em linha com os controles históricos. Porém naqueles pacientes cujo vírus era sensível ao anticorpo, a carga viral demorou mais tempo para se recuperar.
Uma implicação é que o anticorpo deve ser mais potente e duradouro, segundo ele, e outra pode ser - em paralelo com o desenvolvimento atual da terapia tríplice para o HIV - que mais anticorpos têm de ser utilizados.

A perspectiva de uma cura do HIV, por muito tempo descartada como impossível, está ressoando nestes últimos anos. É especialmente importante para as crianças soropositivas que enfrentam uma vida que nunca foi livre de medicamentos poderosos, comentou Jintanat Ananworanich, MD, PhD, do Programa de Pesquisa HIV das Forças Armadas dos EUA.

"Ter uma remissão, ter uma cura teria um impacto enorme", ela afirmou.
Ananworanich disse ainda que “As crianças são candidatas ideais para uma cura utilizando os critérios de Fauci, porque elas quase sempre podem ser tratadas muito cedo no curso da doença. E como o seu sistema imunitário está em desenvolvimento, o vírus pode ter mais dificuldades de se esconder em um reservatório.”

Enquanto muitas pessoas ainda não estão em tratamento em todo o mundo, as terapias atuais são altamente eficazes, fáceis de tomar, geralmente bem toleradas, e oferecem uma vida quase normal.

"Como médicos-cientistas, temos que ter certeza de que o que fazemos para uma cura é melhor para o paciente do que o que eles recebem agora ", Fauci alertou.

por Michael Smith
Correspondente da América do Norte, MedPage Today
tradução Jorge Beloqui