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ETIÓPIA: AIDS E ALIMENTAÇÃO

01/01/2012 - Le Monde / UOL

O combate à Aids com programas de acesso à alimentação

A Etiópia junta o combate à Aids com programas de acesso à alimentação

Em um tom calmo de voz, Genet Yemechehal dá conselhos alimentares a algumas dezenas de habitantes de Debre Zeit (Etiópia), soropositivos como ela, reunidos sob um toldo. Essa mulher de 45 anos, vendedora de pão e de injera – bolacha de farinha de teff que constitui a base da alimentação dos etíopes – vive há sete anos com o HIV.

Beneficiária do programa de acesso à segurança alimentar para os soropositivos e doentes de Aids financiado pelo Programa Alimentar Mundial (PAM), ela decidiu, desde que seu estado melhorou, se envolver como voluntária. A poucos metros dela, acontece uma distribuição de sacos de trigo fornecidos pela Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e galões de óleo de palma doados pela Arábia Saudita.

“Só nos conscientizamos de fato da conexão entre segurança alimentar e tratamentos antirretrovirais no início dos anos 2000”, explica Judith Schuller, porta-voz do PAM na Etiópia. “Em um país como este, as pessoas infectadas podem se ver rapidamente privadas de acesso à comida. Só que a eficácia dos tratamentos depende amplamente da qualidade da alimentação”.

O programa lançado em 2003 pelo PAM, em coordenação com o ministério etíope da Saúde, beneficiou 126 mil pessoas em 2011. Em 2010, 99% dos beneficiários seguiam seu tratamento, contra 76% antes da entrada no programa. Graças a uma doação de US$ 56 milhões (R$105 milhões) do Plano de Urgência do Presidente dos EUA contra a Aids (Pepfar), o PAM espera atender a mais 375 mil etíopes nos próximos cinco anos.

O país possui pelo menos 1,2 milhão de soropositivos ou doentes de Aids (em uma população total de 88 milhões) e mais de 800 mil crianças órfãs ou em situação de vulnerabilidade por causa da epidemia. A prevalência do HIV pode atingir 7,7% em certas áreas urbanas.

Debre Zeit, cidade de 117 mil habitantes situada a cerca de cinquenta quilômetros da capital Adis-Abeba, faz parte das zonas de riscos. Ela se encontra na rota de Djibuti, corredor tomado por muitos caminhões. A presença de caminhoneiros favorece a prostituição e constitui um fator de transmissão da Aids.

Quatro mil habitantes recebem, gratuitamente, tratamentos antirretrovirais: 2.860 foram atendidos pelo programa do PAM. “Eles podem se candidatar a partir do momento em que seu índice de massa corporal se torna inferior a 18,5”, afirma Tizita Yemane, diretora do programa do PAM na região. “Eles recebem um auxílio alimentar durante seis meses, tempo de retomar uma vida normal, e em seguida mudam para outros programas para ter acesso a atividades geradoras de renda”.

É aí que entra a Ratson, uma associação etíope dirigida por um homem de comunicativo entusiasmo: Moges Gorfe, um ex-veterinário e biólogo. Ratson é a intermediária local do PAM e propõe, entre outras coisas, um curso de horticultura para as pessoas que saem do programa de volta à segurança alimentar.

Moges Gorfe e sua equipe desenvolveram técnicas simples e adaptadas ao contexto urbano e à escassez de água. As plantas são cultivadas fora do solo, dentro de sacos que serviram para a distribuição da ajuda alimentar. A irrigação se faz de acordo com o princípio do gotejamento, com a ajuda de tubulações de bambu, garrafas plásticas cortadas, viradas e furadas, ou às vezes até bolsas de soro obtidas junto ao hospital local.

Os beneficiários aprendem a produzir seu próprio adubo e a cultivar plantas como a ervilha de Angola, a ensete (ou falsa bananeira, cuja raiz pode ser transformada em mingau ou pão) e a moringa, uma árvore originária da Índia cujos frutos e folhas são comestíveis.

Belaynesh Dabe também cultiva tomates, acelga, pimenta, alho e um pouco de cana de açúcar. Até pouco tempo atrás, essa mulher de 37 anos, depois de ser obrigada a abandonar sua profissão de vendedora de tella, uma cerveja de fabricação local, estava fraca demais para se levantar. “Meu marido estava moribundo, ninguém acreditava que ele conseguiria sair dessa”, conta ela em voz baixa.

Sendo ambos soropositivos, os dois foram atendidos pelo programa do PAM. Depois de receberem um auxílio alimentar e recuperar suas forças, eles fizeram o curso de horticultura e hoje cultivam uma horta de 200 metros quadrados. Eles continuam a ir ao hospital uma vez a cada dois meses, para se abastecerem de medicamentos.

Mas, para eles e seus sete filhos, o futuro ficou consideravelmente mais claro. Belaynesh Dabe, que conseguiu comprar algumas galinhas vendendo parte de sua produção, hoje sonha em ter uma estufa. Para Moges Gorfe, ela simboliza aquilo que se pode conseguir “com poucos meios, mas muita convicção”.

Tradutor: Lana Lim