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ENQUANTO MILHÕES MORREM

31/10/2003 - O Estado de São Paulo

O obstrucionismo ignorante presidente sul africano

Há uma geração, os americanos protestaram e realizaram manifestações num movimento crescente contra as injustiças do apartheid da África do Sul.

Hoje em dia, uma injustiça incomparavelmente maior - a doença e morte aleatórias, freqüentemente atacando bebês - está devastando a África do Sul. Mas a reação nos Estados Unidos e na Europa, assim como na própria África, tem sido morna. O presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, durante anos adotou uma política infeliz de levantar dúvidas sobre se o HIV causava a aids e políticas básicas questionáveis para enfrentar a crise. Mesmo agora, embora Mbeki tenha mudado de opinião, os portadores de aids demoram a procurar tratamento por causa das dúvidas semeadas por Mbeki.

O obstrucionismo ignorante de Mbeki já matou um número incomparavelmente maior de sul- africanos do que qualquer líder do apartheid.

A África do Sul anunciou este ano que começará a tratar os pacientes com aids com anti-retrovirais. Só vou acreditar nisso quando vir. É indesculpável que o país com a melhor estrutura de assistência médica da África deva, também, ser aquele com o maior número de portadores de HIV e aids - que deverão morrer em 2003 sem tratamento. Nos Estados Unidos, pensamos na aids simplesmente como uma epidemia. Na realidade, como o Holocausto, é um desafio moral para mundo, um desafio que não estamos enfrentando.

Negligência - "É o assassinato em massa por negligência", declarou Stephen Lewis, enviado especial daONUpara a aids na África. "O momento para solicitações corteses oumesmo para agitar a opinião pública já passou. Não se pode permitir que essa pandemia continue e aqueles que assistem a seu desenrolar com um tipo de equanimidade patológica devem prestar contas".

A aids não apenas está matando os doentes, mas abalando seriamente os saudáveis. "Há dois tipo de pessoas aqui", diz o dr. Marlin McKay, que trata de pacientes com aids em Johannesburg.

"Os infectados e os afetados".

Já está se espalhando através do sul da África uma nova espécie de carestia, pois aqueles debilitados pela doença não conseguem mais trabalhar no campo nem manter o emprego.

As mais vulneráveis são as 11 milhões de crianças africanas que perderam ao menos um dos pais para a aids (a expectativa é que esse número chegue a 20 milhões em 2010).

"Obter dinheiro para a comida e a roupa é muito difícil", disse Thembi Mashaba,uma órfã da aids que agora é responsável por um irmão e uma irmã mais novos em idade escolar.

Para ajudar a pagar as contas, ela encontrou um namorado que contribui com US$ 27,00 ao mês para a família; tais ligações ajudam mulheres e crianças a sobreviver, mas também espalham ainda mais a aids.

"Eu diria que 65% das garotas com idade entre 14 e 18 anos dormem com homens mais velhos por dinheiro", disse Sandile Mohlape, uma assistente social de Sekhukhune, uma região rural a noroeste de Pretória. "Não há garotas de 14 anos dormindo com garotos de 14 anos. Não, as garotas dormem com homens com mais de 30 anos. Fazem isso por causa da pobreza, para conseguir comida. Elas tem consciência da existência da aids, mas precisam de comida e dinheiro, assim, não conseguem exigir dos homens que usem preservativos. A maioria dos homens não usa preservativo. Dizem que é como comer pão enrolado num saco plástico."

O estupro é comum e mortífero, porque 45% dos estupradores pegos na África do Sul são portadores do vírus da aids. Num âmbito mais amplo, os costumes e as instituições sociais estão se deteriorando em meio ao desespero, deixando a sociedade cada vez mais desordenada.

Falência total - "Os professores estão pedindo sexo para aprovar uma aluna ou para lhe dar uma boa nota", disse Thulani Nkosi, um professor de segundo grau que tem o HIV, embora diga que nunca fez isso. No fim, a aids pode transformar alguns países africanos em Estados falidos; um estudo do Banco Mundial publicado em junho adverte que, se a África do Sul não combater a epidemia, enfrentará um "total colapso econômico".

O pequeno país africano de Botsuana é maior alvo da epidemia, pois cerca de 39% dos adultos têm aids ou HIV. Você constata seu impacto nas ruas de Botsuana, por onde andam adultos e crianças com aparência cadavérica.

Botsuana, porém, é também um raro lugar onde há esperança. Temsido o pioneiro na África em tratamento e 7.700 pessoas estão recebendo droga anti-retrovirais. O médico Ernest Darkoh, que ajuda a administrar o programa, observa que, entre aqueles que estão tomando as drogas, em 85% dos casos o vírus foi suprimido após seis meses de tratamento. Botsuana mostra que milhões de vidas podem ser salvas se atuarmos energicamente - o que levanta a pergunta simples: por que não estamos fazendo isso?