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PESQUISA DE VACINA

22/09/2007 - GIV

Suspensão do Estudo STEP de candidata a Vacina anti-HIV

Traduzido e adaptado do Release da Merck e da HVTN por Jorge A Beloqui (GIV,ABIA, RNP+)



A vacinação e o recrutamento em ensaios de Fase II da candidata a vacina da Merck são descontinuados

Análise intermediária mostra que a candidata a vacina não foi efetiva.

EUA, 21 de setembro de 2007. A vacinação num ensaio de Fase II da Merck para a candidata a vacina V520 está sendo suspensa porque a vacina não foi eficaz. O anúncio foi feito hoje pelos patrocinadores deste ensaio clínico: Merck e a Rede de Ensaios para Vacina anti –HIV (HVTN) financiada pelo Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID) dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

O ensaio, denominado STEP, era um teste-de-conceito multicêntrico, internacional de Fase II em voluntários não infectados em alto risco para a infecção pelo HIV. O Comitê de Monitoramento de Dados de Segurança (DSMB) do STEP revisou os dados de segurança e os resultados de uma análise intermediária de eficácia, e recomendou que a vacinação fosse descontinuada porque o ensaio STEP não alcançará resultados de eficácia. Os pesquisadores do estudo foram instruídos a descontinuar a vacinação dos voluntários neste estudo e a acompanhá-los segundo o protocolo do estudo. O recrutamento e vacinação de um segundo ensaio de Fase II desta vacina, que vinha sendo realizado pela HVTN na África do Sul, denominado Phambili (Ver Boletim 17), e mais dois ensaios adicionais de Fase I foram descontinuados. O DSMB do ensaio Phambili avaliará os dados disponíveis.

A candidata a vacina da Merck é uma combinação de três componentes, cada uma delas produzida com uma versão atenuada de um vírus comum (adenovírus tipo 5), que serve como transportador, ou vetor de entrega, junto como três genes do HIV produzidos sinteticamente conhecidos como gag, pol e nef.

O estudo STEP (HVTN 502, Merck V520 Protocolo 023) foi um ensaio de Fase II para teste de conceito multicêntrico, randomizado, duplo cego e controlado por placebo. O ensaio recrutou 3.000 voluntários sem HIV de diversos locais entre 18 e 45 anos de idade em alto risco para a infecção pelo HIV.

O estudo avaliou dois desfechos de eficácia primários: se a vacina previne a infecção pelo HIV e se a vacina reduz a carga viral em aqueles que desenvolvem a infecção. Uma análise intermediária de eficácia foi realizada conforme planejado, em aproximadamente 1.500 voluntários. Esperava-se que eles mostrassem a melhor resposta à vacina porque eles tinham níveis baixos de imunidade pré-existente ao adenovírus 5.

A vacina não preveniu a infecção: nos voluntários que receberam pelo menos uma dose da série de três doses da vacina, 24 casos de infecção pelo HIV foram observados nos 741 voluntários que receberam a vacina e 21 casos de infecção pelo HIV foram observados nos 762 participantes do grupo do placebo. No subgrupo que recebeu pelo menos duas doses e que permaneceram HIV negativos durante pelo menos as 12 semanas iniciais do teste, foram observados 19 casos de infecção pelo HIV nos 672 voluntários que receberam a vacina e 11 casos nos 691 que receberam placebo. Além disso, a vacina não reduziu a carga viral no sangue dos que se infectaram. Os níveis de RNA do HIV eram similares nos braços da vacina e do placebo aproximadamente de 8 a 12 semanas depois do diagnóstico da infecção. As médias geométricas dos níveis de RNA do HIV no sangue dos indivíduos infectados, que constitui a medida padrão sobre a replicação do HIV, foram de aproximadamente 40.000 cópias/ml no grupo da vacina e aproximadamente 37.000 cópias/ml no grupo de placebo. Serão realizadas análises adicionais em toda a população do estudo e compartilhadas com a comunidade científica.

Os voluntários do estudo foram acompanhados por aproximadamente 13 meses. As taxas gerais de eventos adversos foram geralmente similares entre os dois grupos, exceto por uma taxa maior de reações locais no lugar da injeção no grupo que recebeu a vacina.

“ Hoje, compartilhamos a decepção das comunidades de pesquisa e do HIV. Infelizmente, o desenvolvimento de uma vacina eficaz para o HIV permanece uma das tarefas mais desafiantes da medicina moderna, “ expressou Peter S. Kim, presidente dos Laboratórios Merck de Pesquisa. “O programa de pesquisa em HIV da Merck, que completou 20 anos, levou a uma compreensão científica melhor do HIV e a medicamentos verdadeiramente inovadores. Estamos comprometidos a analisar os dados cuidadosamente e partilhá-los com a comunidade científica para informar sobre a busca em andamento de uma vacina eficaz para o HIV.”

Larry Corey, investigador principal da HVTN afirmou que a “HVTN é uma rede global de cientistas, administradores e membros da comunidade cuja missão é a de acelerar o desenvolvimento de uma vacina anti-HIV preventiva segura e eficaz. Este ensaio foi o primeiro teste de conceito que forneceu informação desta vacina mais rapidamente e eficientemente do que com o tradicional ensaio de Fase III. Apesar de que estamos muito desapontados com a falta de demonstração de eficácia desta candidata a vacina, os dados deste ensaio fornecerão conhecimentos críticos para esta doença e para o desenvolvimento de futuras vacinas.”

“Esta é um grande decepção para todos nós que estamos envolvidos na busca de uma vacina para o HIV”, disse Glenda Gray, investigadora principal do ensaio Phambili, patrocinado pela HVTN. “O HIV está flagelando nossas comunidades, e todos os cientistas, participantes e comunidades envolvidas nos estudos de vacinas têm sido afetados pela epidemia. A comunidade científica deve continuar a carreira para encontrar uma vacina que ajude a ter uma geração livre de HIV no futuro.”

A vacina da Merck, baseada em adenovírus, usava uma abordagem que procurava uma resposta imunitária mediada por células. A hipótese era que os genes do HIV na vacina estimulariam o organismo a gerar uma resposta imunitária específica para o HIV através das células T CD8 do próprio corpo, que ficariam programadas para reconhecer e eliminar as células infectadas pelo HIV.

Os adenovírus estão entre as causas do resfriado comum. O tipo 5 do adenovírus utilizado nesta vacina em investigação tinha sido modificado de modo que não pudesse se replicar nem causar um resfriado. Também, como a vacina não continha vírus HIV vivo e tinha somente três genes do HIV, os voluntários não podiam se infectar pelo HIV através da vacinação. Esta vacina foi previamente testada em vários ensaios clínicos menores, que mostraram que era em geral bem tolerada e capaz de induzir níveis significativos de respostas específicas ao HIV mediadas por células.

O estudo STEP incluiu vários locais de teste nas Américas do Norte e do Sul, o Caribe e Austrália, onde o subtipo B é predominante. Os genes do HIV incluídos na vacina eram deste subtipo. Metade dos participantes do estudo recebeu três doses da vacina por seis meses, enquanto a outra metade recebeu três doses de placebo. O primeiro voluntário foi recrutado em dezembro de 2004 e o recrutamento foi completado em março de 2007.

O segundo ensaio de Fase II desta candidata a vacina, o ensaio Phambili, (HVTN 503, Merck V520 Protocolo 026) foi iniciado em 2007 na África do Sul pela HVTN para explorar se a vacina da Merck seria eficaz na prevenção da infecção, reduziria a carga viral ou ambas coisas, em relação ao subtipo C do HIV, mais comum na África meridional.

Observação: O Brasil participou deste estudo junto com a Austrália, Canadá, Estados Unidos, Haiti, Jamaica, Porto Rico, Peru e República Dominicana. Os centros foram o Projeto Praça Onze (UFRJ) no Rio de Janeiro, e UNIFESP e HVTU (CRT-AIDS do Estado de São Paulo) em São Paulo