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O SEGREDO DOS SOBREVIVENTES

22/05/2005 - Revista Veja

A chave para uma vacina pode estar em pacientes

A chave para uma vacina antiaids pode estar nos pacientes que têm o vírus, não tomam remédios e não desenvolvem a doença.

O americano Kai Brothers calcula que tinha apenas 18 anos quando contraiu o vírus da aids. Era 1981 e pouco se sabia sobre a doença – e menos ainda sobre o HIV. Nos oito anos seguintes, Brothers testemunhou os horrores do início da epidemia, com a morte quase que imediata de muitos amigos. Sem saber que estava infectado, ele doou sangue várias vezes durante esse período. Apenas em 1989 Brothers se submeteu ao teste de HIV. O resultado positivo foi uma surpresa. Aos 26 anos, ele nunca havia apresentado nenhum sinal da aids. Naquele tempo, o costume era medicar a maioria dos portadores do vírus. Brothers não aceitou: ele se sentia saudável e temia os efeitos colaterais do tratamento. Sem nunca ter sido medicado, ele hoje faz parte do grupo de estudos do virologista Jay Levy, professor da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Desde o fim da década de 80, Levy estuda o caso de pessoas que, como Brothers, carregam o HIV, mas seguem saudáveis, sem nenhum sintoma da doença, apesar de jamais terem tomado remédios contra o vírus. São o que os médicos chamam de "sobreviventes de longo prazo". "Depois de acompanhar o sofrimento e a agonia de tanta gente querida, eu quis retribuir a sorte que tenho colaborando com a luta da ciência contra a aids", disse Brothers a VEJA. E o interesse da medicina em pessoas como ele é enorme. Pode estar nelas a chave para o desenvolvimento de uma vacina contra a doença.

Não há estatísticas oficiais sobre o número de "sobreviventes de longo prazo", mas estima-se que eles representem cerca de 5% do total de infectados – o que equivaleria a 92.000 pessoas no Brasil. Por obra e graça da genética, no organismo dos "sobreviventes", o vírus da aids não consegue entrar nas células. Conseqüentemente, o sistema imunológico permanece intacto e eles não desenvolvem a doença. "No entanto, é preciso deixar claro que, ainda que o vírus não lhes cause danos, essas pessoas são transmissoras do HIV como qualquer outro infectado", diz o infectologista Artur Timerman, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Imagine o corpo humano como um campo de batalha, em que as células de defesa CD4 funcionariam como os comandantes e as CD8, como os soldados. Quando ocorre a infecção pelo HIV, as CD4 ordenam às CD8 que ataquem o inimigo. O problema é que, quando as CD8 atacam o HIV, destroem também células-comandantes, junto das quais está o invasor. Com o desenrolar dessa refrega, chega um momento em que o estoque de CD4 é tão baixo que o organismo passa a ficar sujeito a todo tipo de infecção. Isso define a vitória do HIV – exceto no caso dos "sobreviventes de longo prazo". Na grande maioria dos infectados, entre a data da infecção e os primeiros sintomas da aids, leva-se, em média, cinco anos. A equipe do virologista Levy acompanha trinta "sobreviventes de longo prazo". A maioria é composta de homens, tem de 30 a 50 anos e convive com o HIV há quinze anos, em média. "Oito deles, porém, são portadores do vírus há 25 anos, estão bem e nunca receberam medicamento", disse o médico a VEJA. Há duas hipóteses para explicar por que uma pessoa pode ser infectada pelo HIV e nunca vir a desenvolver a aids, mesmo sem medicamento. Alguns pesquisadores, entre eles Jay Levy, acreditam que as células de defesa dos "sobreviventes" produzem uma substância que congela o HIV e o mantém inativo. Outros cientistas defendem que, nessas pessoas, o vírus não se replica porque não consegue entrar nas células e, dessa maneira, se multiplicar.

Outro caso de exceção genética muito estudado é o das "prostitutas de Nairóbi". Assim ficou conhecido o grupo de cerca de 200 quenianas que, embora mantenham relações diárias com homens infectados, sem nenhuma proteção, mostram-se imunes ao HIV. A suspeita é a de que, também por causa da genética, o sistema imunológico dessas mulheres produza uma proteína específica que bloqueia a entrada do vírus nas células. Com isso, o HIV não consegue se reproduzir e dominar o organismo de seu hospedeiro. Os estudos com os "sobreviventes de longo prazo" e as "prostitutas de Nairóbi" fornecem pistas sobre o funcionamento do HIV e, com isso, criam novas frentes de combate à aids.

A síndrome da imunodeficiência adquirida é uma das doenças que mais mobilizam as atenções da ciência. Desde o começo da epidemia, em 1981, já se produziram quase trinta medicamentos contra ela. O mais novo deles acaba de chegar ao Brasil. É o Fuzeon, do laboratório Roche. Primeiro de uma nova classe de remédios antiaids, a dos inibidores de fusão, ele é o único a combater o vírus antes que entre nas células. Faz isso ao se grudar ao HIV, impedindo-o de assumir a forma necessária para efetuar a invasão celular. Está prevista para 2008 a chegada ao mercado de uma outra categoria de medicamentos, a dos inibidores dos co-receptores. Ao atuar nas proteínas encontradas na superfície das células que servem de entrada para o HIV, esses remédios prometem bloquear o vírus. Quando Kai Brothers se contaminou, a aids matava quase a totalidade de suas vítimas em três anos, em média. Está-se ainda muito longe da cura, mas, graças aos avanços nos conhecimentos sobre o HIV e aos medicamentos criados a partir deles, hoje a aids é uma doença crônica e controlável, conforme classificação da Organização Mundial de Saúde. Casos como o dos "sobreviventes de longo prazo" ou o das "prostitutas de Nairóbi" sugerem que a cura para a doença pode estar não apenas no vírus, mas também em seu hospedeiro.