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MULHERES SÃO MAIORES VÍTIMAS DA AIDS

03/03/2005 - Cox Newspapers

Cultura machista estimula a disseminação do vírus HIV

Mulheres são maiores vítimas da Aids na Etiópia
Cultura machista estimula a disseminação do vírus HIV entre elas

Os outros órfãos silenciam quando Abyot Fisseha canta uma música que sua mãe lhe ensinou antes de morrer de Aids quatro anos atrás. A canção enaltece o sol, as nuvens, os rios e as árvores, como se a mãe quisesse ter focalizado o seu amor em coisas que não podem ser tiradas por ninguém.
Muitas das crianças neste orfanato em um subúrbio poeirento de Adis Abeba, capital da Etiópia, sabem canções que suas mães lhes ensinaram, a maior parte delas elegias que mesclam amor e perda. Muitas vezes as canções são as únicas heranças deixadas a essas crianças.
Mas Abyot, que atualmente tem 13 anos, e mais da metade dos órfãos daqui, herdaram algo mais das suas mães: o HIV, o vírus que causa a Aids.
"As mães são geralmente pobres e sem escolaridade e dificilmente têm condições de se protegerem do vírus. E tão logo o contraem, é difícil proteger os filhos da contaminação", explica Addis Tamrat, diretora em exercício da Hope for Children, em Adis Abeba, instituição que mantém várias casas comunitárias para crianças que ficaram órfãs devido à Aids.
Na Etiópia, as mulheres representam quase 60% dos 2 milhões de pessoas com Aids, e o país registra o maior índice do mundo de infecção por HIV em crianças, em grande parte devido à transmissão de mãe para filho durante a gravidez, parto, ou no decorrer da lactação, segundo um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em dezembro.
Esta nação tipifica o que está ocorrendo em grande parte do continente, dizem os especialistas em saúde, conforme a pobreza e as desigualdades entre os sexos deixam as mulheres mais vulneráveis ao HIV. Mais de um terço delas, muitas vezes sem saber, passa o vírus aos filhos.
Devido a isso, as mulheres são o foco do maciço programa governamental etíope para combater a epidemia de Aids. O programa de US$ 43 milhões, grande parte do qual financiado pelos Estados Unidos, tem como objetivo fornecer exames gratuitos de HIV a todas as gestantes, além de oferecer novirapine, uma droga que impede com freqüência a transmissão de mãe para filho, às portadoras do vírus.
O plano fornecerá gratuitamente drogas anti-retrovirais, ou ARVs, a cerca de 30 mil etíopes até o fim do ano, e esse número deve beneficiar mais de 200 mil pacientes nos próximos três anos. Essa é a primeira vez que a Etiópia, um dos países mais pobres e mais duramente atingidos pela Aids em todo o mundo, distribui gratuitamente ARVs à sua população infectada pelo HIV.
"Tradicionalmente, há aqui violência contra a mulher, além de casamentos prematuros e sexo com múltiplos parceiros. Esses são alguns dos fatores agravantes da Aids sobre os quais temos falado aberta e agressivamente", diz Birru Birmeji, diretor do departamento de prevenção e controle do HIV/Aids do Ministério da Saúde da Etiópia.
Na Etiópia, assim como em muitas regiões da África, o casamento é um fator de risco para a Aids.
Neste país preponderantemente rural de 68 milhões de habitantes, onde o casamento é muitas vezes uma transação financeira entre famílias, em vez de uma declaração pública de amor mútuo, não é incomum que homens de meia idade se casem com adolescentes, algumas delas de apenas 13 anos.
Essa prática aumentou quando teve início a crise da Aids na África, já que essas adolescentes são tidas como "puras", o que em muitos casos significa não estarem infectadas pelo HIV.
Tão logo se casam, é difícil para mulheres e adolescentes se protegerem da infecção provocada pelos maridos promíscuos que têm várias mulheres. Quanto mais velho o marido, mas risco corre a noiva de contrair o vírus dele. Na Etiópia, assim como em outras partes da África, poucas mulheres ousam pedir aos maridos que usem camisinha.
Como resultado, as adolescentes casadas apresentam índices de infecção por HIV mais elevados do que os das garotas solteiras sexualmente ativas, segundo um relatório da Unaids, a instituição da ONU que lida com o problema do HIV e da Aids.
Belaynesh Beyene, que se casou aos 17 anos, diz que contraiu o vírus do seu marido durante o primeiro ano de casamento. Ela conta que descobriu ser portadora do HIV por meio de um exame de rotina.
Agora Beyene tem 23 anos e o vírus a devastou, fazendo com que o seu corpo esquelético lembre o dos etíopes na época das grandes ondas de fome nos anos 80. Para ela, respirar é uma luta. E falar é ainda mais difícil. O seu corpo delgado se confunde com as dobras escuras do cobertor. Os médicos e enfermeiros que a assistem sussurram entre si que ela provavelmente morrerá dentro de uma semana.
O marido de Beyene a abandonou quando ela estava grávida da primeiro filha, Bethlehem, atualmente com cinco anos. A sua outra filha, Salim, de três anos, é fruto da relação com um homem que ela conheceu um ano depois e que, assim como o marido, também a abandonou.
Muitas mulheres portadoras do HIV escondem o fato dos maridos e namorados, que muitas vezes se constituem em seu único suporte financeiro em um país no qual as mulheres têm menos acesso que os homens à educação e aos empregos.
O estigma do HIV e da Aids neste país profundamente religioso, habitado por muçulmanos e cristãos, é tão forte que as mulheres comprovadamente portadoras do vírus são abandonadas pelos maridos, desprezadas pelos vizinhos e lançadas no ostracismo pelas famílias.
Esperando não despertar a suspeita do namorado, Beyene continuou a amamentar a filha, tentando convencer a si mesma de que o leite não estava contaminado pelo vírus. Mas ele estava.
Tanto Bethlehem quanto Salim, embora não saibam disso, são HIV positivas. A mãe, mesmo tendo um curto período de vida pela frente, ainda prefere esconder a verdade das duas --em parte para evitar a vergonha causada pelo fato de as filhas saberem que ela está morrendo de Aids, e também para protegê-las do embaraço devido ao fato de os vizinhos descobrirem que elas são portadoras do vírus.
"Minha preocupação é que, depois que eu morrer, não reste nada para elas. Ninguém vai tomar conta dos meus filhos", queixa-se ela em amharic, a língua mais falada na Etiópia.
Até mesmo os orfanatos estão lotados. A Hope for Children já se esforça para fornecer cuidados básicos e tratamento a base de ARVs aos seus 460 órfãos aidéticos. O custo desse trabalho é coberto com doações de indivíduos --em sua maioria etíopes-- e fundos da Unicef, a agência da ONU para assuntos relativos à infância.
Mais de 150 órfãos estão na lista de espera. Vários deles provavelmente morrerão de doenças relacionadas à Aids, como a tuberculose, nos próximos anos. Mas alguns têm uma chance --apesar de que, por ora, reduzida-- de obter gratuitamente as ARVs, que prolongam a vida, por meio do novo programa governamental.
"Me emociono ao ver essas crianças, especialmente quando elas são HIV positivas", diz Tamrat, que começou a trabalhar como voluntária em um orfanato ao terminar a faculdade. "Elas são as mais inocentes. Ainda mais do que as mães, porque nada fizeram para passar por tal sofrimento".